A exegese de tua alma
é o dedilhar de um violão
com poucas notas.
Persistirá o ácido das guitarras
e o fragmentar da teia frágil
e dócil do piano ao fundo.
Alguma coisa impossível me chama,
um verso proferido é exorbitante.
Os cães se calam.
Os acordes se fecham como o último
ato.
Os cabelos grisalhos não descrevem
nosso conhecimento sobre o mundo.
Aprofundamo-nos tanto para sermos
reduzidos a fraqueza de nossos ossos.
Tu cantas, fraca, e o verso se arrebenta
da tua boca como uma gafe.
Finalmente estás sem palavras.
Por fim em ti se expande um silêncio que
asusta, mas não deprime.
Entende o fim da vida que sopra
no tempo, que range como uma ferida
de toda madrugada.
És máquina enferrujada, cansastes e não
te culpo.
Ainda calçamos nossas lembranças e choramos
diante da inquietação das
terras longínquas.
Morremos?
Não.
Estamos na estação mais deserta da vida e
ainda rimos no último gole de aguardente.
Nada nos afeta.
Tudo passou, paramos pelo cansaço.
Somos monstros que engolem avidamente
o silêncio mesmo com nossas dentições tão
gastas.
A ausência da palavra não é mais problema,
apesar de evitarmos os olhos nos olhos,
as mãos íntimas de antigamente.
Temos virtudes juvenis.
E a gente vai se olhar e rir de todo esse dramalhão, vou te chamar de bobo, você vai me chamar de besta e amanhã de manhã um outro sol, não mais tão quente e nem tão brilhoso quanto antes, vai nos convidar pra passear enroscados na calçada da mesma ruazinha apertada e sem graça de sempre, como sempre foi. E as pessoas vão perguntar se você voltou. E você vai dizer que nem foi.
Tem que ter um refúgio, pode ser uma casinha na árvore, o cantinho do seu quarto, um livro, um abraço, um cafuné, um buraco no fundo do poço ou até trancado no banheiro da sua casa. Mas tem que ter, ninguém consegue lidar com a realidade todos os dias. Ela nunca é como esperamos, sempre nos machuca, sufoca, pressiona e quando isso acontecer, é bom você saber que tem um lugar pra onde correr.